Abr 03 2007
Porque carga do que quer que seja começo sempre por querer saber da rigidez
nas pessoas? Rigidez sólida do físico, do espírito, da mente.
Porque não vou logo ao assunto desta breve mensagem? Sim, venho perguntar
se o trabalho para amanhã já se encontra pronto.
Não, minto: encaminhado.
Estou a ser mentiroso, porque não é este o derradeiro motivo.
Sou mentiroso?
Cala-te.
O meu filho é emigrante no Brasil, tem lá vida feita.
Não é Alberto?
Estivemos lá no natal. Tem uma vivenda, e o negócio dele, segundo ele, é
comprar-reabilitar-vender. Sim, negócio dele tem a ver com casas.
Não é Alberto?
E a casa dele a cair, e ele a cair.
E tudo que o rodeia a cair.
Não Alberto?
E tu Alberto, não me ouves? Não olhas para o senhor? É má educação, o que é que o jovem vai pensar de nós?
E o nosso filho que não quer regressar.
Não é Alberto?
E o Alberto a olhar para mim a segredar-me com os olhos, nos olhos: ele não é meu filho. É do meu irmão.
E ele a continuar: ela não imagina que eu sei. Na altura do natal em nossa casa, eu ao lado dela e o meu irmão a frente.
E o meu irmão que na altura do natal ganhava a outra personalidade.
O meu irmão do peito para cima; irmão do ventre para baixo.
E ela também, dupla. As partes de baixo entendiam-se por baixo da mesa enquanto eu abria peru.
A mãe dela sempre nervosa.
(Ela que nem desconfia)
Não é Alberto?
Ela a cair, eu a cair e o Alberto já no chão.
Não é Alberto?
E o nosso filho que foi para o Brasil depois da Expo, atrás duma morena que vendia sorrisos no pavilhão do mesmo.
O meu filho que só nós telefonou na primeira noite.
Não é Alberto?
E ela a dizer que lá havia emprego, que gostava muito dele, etc.
Não é Alberto?
E nós no nosso canto em Pinhal Novo. Nós que só conhecíamos o Seixal, nós que só víamos Brasil na SIC.
:as pessoas sempre bem vestidas em casa, com empregadas de cor.
E a nossa casa infestada de humidade, e tu com dores nos ossos.
Não é Alberto?
Senhor, desculpa estar a incomodá-lo.
E eu senhor de mim não dando monta a senhora.
E eu senhor de mim não dando monta ao que a senhora dizia.
E eu senhor de mim enojado com o aspecto do senhor ao lado dela.
E eu senhor de mim, mais enojado com o senhor que há em mim.
Não é Alberto?
O nosso filho no Brasil tem vida feita, não?
E eu, cada vez mais enojado com a conversa dela. E ela com mau hálito, e ela como coisa branca no canto da boca.
E ela que não parava de falar.
Não é Alberto?
E ela a chorar, dizendo: Não é Alberto?
Não é verdade que o nosso filho tem a vida feita? Não é isso que dizemos as pessoas que perguntam por ele?
E ela a chorar, dizendo: Não é Alberto?
Não é o que dizemos as pessoas mesmo vivendo em Pinhal Novo, naquela casa que chove no verão?
E ela a chorar, dizendo: Não é Alberto?
E o Alberto com os olhos: ela vive de aparências. Como vê senhor, estou sujo, sou o que sou.
E eu cada vez menos senhor de mim por não conseguir chegar a outra margem.
E eu com compromissos.
E eu que desde o início sempre soube que o que tenho para te dizer está na outra margem.
Senhor desculpe o incómodo.
E ela a chorar, dizendo: Não é Alberto?
E eu de longe, lendo na outra margem: “Já estão gravados no disco? Posso levar para tua casa? Antes dizes qualquer coisa a tua mãe?”
E ela a chorar, dizendo: Não é Alberto?



