Mar 30 2007
águas que andam lá em baixo, dedilhando os pés da minha senhora.
e eu na meninez dos meus alguns-meses já lá estive e agora aqui em cima, estou por estar acordado: comendo: despertei-me no sono das paragens por onde já ia.
adormeço sempre no embalo limpo da minha mãe (já te explico isso) ou simplesmente perceberás
(é melhor explicar já, é melhor: se começar a falar do que me trás aqui… perdi-me)
a transparência é sempre a minha última visão (a pedra coberta por muitas águas que por aqui passam: vão as águas e ela não se move: é mais pequena que eu: mais velha)
quando adormeço sempre com o rio nos olhos, tudo porque ela embala-me na brancura dos outros: nunca percebi isso dela lavar a roupa dos outros. Ela nunca me explicou porque eu só babava para o rio: um rio de mães, este onde babo com saliva de leite do peito dela.
não percebia a linguagem dela aquando do diálogo do meu pai, mas soube depois: que a única diferença entre a profissão de ambos residia no: fixo e portátil.
a ferramenta do meu pai era móvel e portátil: com a corda de aço ele palmeirava em busca do branco: o branco é doce: o branco que…hum, que fazia dele um ser com cheiro dos que palmeiram: as mãos e os pés com vários calos; a total ausência de gordura no corpo; o boné sempre na cabeça; o machim sempre na mão esquerda; a tal corda de aço ao ombro; o tronco sempre nú; o garrafão na mão direita; eu nas costas; o alguidar na cabeça; roupa dos outros no alguidar; sabão em forma de bola no alguidar; o pão do meio-dia enrolado nas roupas (dos outros); o lenço por entre as tranças e o alguidar; as tranças já de si antigas; alguns fios brancos nas tranças; os pés nos chinelos-facilita; a saia ao joelho; a t-shirt da campanha legislativa; a ferramenta dela sempre fixa; a pedra onde ela amassava a roupa dos outros: em busca de brancura e justiça (raiva nas mãos: “ao menos aqui posso dar cabo deles”; pedra sempre lá (em baixo) fixa nela própria e no leito das águas que passam lá por baixo.
achei-me
porque é a hora do pão e eu já acordei com o parar da raiva: a mão dela largando a roupa; a roupa sozinhada na pedra; eu des-encostado no fim do branco embalar; eu já não sentindo o bater do coração dela: o calor do aconchego de todos os órgãos internos à ela.
- Mãe, quero falar contigo sobre os planos do fim de semana.



