Fev 17 2007
(estás aonde? Barulho porquê?)
Estou no 26: velhas aqui que não param de falar. Velhas, Lili. Velhas.
(Estás a caminho? Vens para aqui: para mim? Espero por ti?…)
Oh Lili, não. Faço anos hoje e vou almoçar com meus pais. Faço 26, Lili. Vinte e seis.
Mas os teus pais já não estão entre nós, sabes bem disso. Deixaram de ser velhos. E se parasses com esta de usar “os meus pais” para justificar coisas presentes? As tuas ausências. E se parasses?
(Lili já te falei da febre? Ainda não, por isso queres que eu pare de justificar coisas. Quando a febre se me surgia: assim do nada. Depois do dia na rua: com os cães, com a terra e com as coisas. Ah, se calhar apanhava a febre no calor das coisas que pegava. Será Lili?
(Diz Lili, fala comigo. Sei que aproveitei as tuas únicas 3 reticências para falar da febre. Mas diz enquanto: falas: cobras)
Muitas coisas quentes com que brincava durante as manhãs domingueiras. Quenturas que se me saíam durante a noite em forma de febre? Será Lili? Se sim, então o porquê das dores de corpo? Porquê da azia? Porquê do mau estar? Porquê Lili?
Porquê de estares agora a evocar “meus pais”. Com que direito Lili?
(Na agonia da febre: Ela à cabeceira da cama com um pano encharcado de baixas temperaturas. Ela na minha testa, Lili. Deslizando-o do pescoso ao peito. Lili, ela fazia isso, sabes?)
Com de direito, Lili?
Ele com as mãos: com a rigidez da terra a pegar no meu ventre: fazendo a suave força: dói? Aqui dói?
(Ele que não é médico, Lili. Para ti: “Ele que não era médico, Lili”)
Com que direito, Lili?
(…ouves o que eu te estou a dizer? És capaz de dizer que não por causa do barulho. És, sei que és. Espero por ti?)
Está silêncio aqui: aí. Abílio, ouves-me? Espero por ti? Vens?




