Fev 16 2007
A mãe da Jessy ao saber da queda: em lágrimas.
Não, foi só uma lágrima que saiu do esquerdo olho. Uma gota de lágrima, Jessy. Foi uma. Na forma: igual a tua. No conteúdo: diferente das tuas. Tão diferente, Jessy.
(Isso da forma e do conteúdo Jessy, é dum professor que tu hás-de ouvir falar quando nasceres: quando faleceres depois da morte que sucederá ao nascimento de ti.)
Escrevo tudo isso aqui no meu pensamento, só para ti e como se já estivesses aqui engessada a mim: comigo. Eu sentindo o teu peso em mim: envolvência, Jessy.
(o que sai nas colunas não me deixa estar contigo: Jessy, só contigo) faz com que eu off’e a coluna sem ter a preocupação de stop’ar o itunes. Só para estar só contigo, assim.)
Jessy, só quero preocupar-me contigo: com a tua mãe na lágrima que não saiu no direito. Logo ela: a tua mãe, Jessy. Que se em-pranta por tudo e por cada.
Ponho-te agora esta passagem só para saberes um pouco mais da tua mãe: lembras-te do dia em que o F*****, bêbado de si e da vida, foi atropelado ao atravessar a estrada?
Lembras-te? Não te lembras de teres visto o transparente e salgado líquido no rosto da tua mãe; não?
(Eu vi)
e sei que era salgado porque todos têm a mesma forma; saem da mesma forma: em momentos diferentes: sim isso varia de pessoa para gente.
Mas não Jessy, sei que é salgado porque sinto-o agora no canto esquerdo dos meus lábios: digo de passagem: que só acontece quando lá levo a língua.
não Jessy?
A tua mãe em prantos no lamento da morte do F*****; do abrupto atropelo na vida dele. Nos planos que ele tinha:
-vou deixar de beber um dia, você vai ver. Vou deixar de beber!
(não é que ele deixou mesmo de beber, Jessy)
Não chegaste a conhecer os planos do F*****: mas ele tinha bué de momentos para ti.
Não chegaste a conhecer o F*****.
-essa piquena vai ser genti-gordo.
Frase do Filipe, Jessy. Resumo de todos os planos que ele te fazia:
-essa piquena vai ser genti-gordo!
Já na altura em que tu só ouvias sons; quando só sentias a tua mãe (as emoções que ela te trespassava) e conseguias ouvir todos os sons que passavam por ela; quando as lágrimas dela saiam de ti.
(vejo isso agora que te imagino coisas, Jessy): terei lido isso algures ou não passa só do processo de escrita do/no meu pensamento?
Refiro-me as lágrimas das grávidas.
Ah, não. É a minha lógica própria: as lágrimas das grávidas são todas dos bebés que ainda estão dentro. Não vendo a luz do dia ou das lâmpadas donde quer que nasçam:
as lágrimas só podem ser dos bébés de dentro.
É um processo, Jessy. Contigo também foi assim: tu no ventre a fornecer lágrimas insossas a tua mãe; tu sempre a bombear lágrimas para fora de ti: mais e mais.
Quanto mais dolorosa era a respiração da tua mãe, mais tu bombeavas para fora de ti: lágrimas.
Todas sem sal, Jessy.
Lágrimas que só ganhavam vida e sabor ao passarem pela salina dos olhos dela.
(Todos nós temos salinas nos olhos, sabias Jessy?) tu que só vais aprender isso quando deixares de ser gente. Quando faleceres na tua vida.
Mas isso só depois do teu nascimento, só após:
-essa piquena vai ser genti-gordo!
(Jessy, estou perdido na escrita do meu pensamento):
tua mãe? Lágrimas? F*****?
A tua mãe ao saber da minha queda por tua causa: em lágrimas.




