Jun 05 2008
De Estadista Anão a Populista Perigoso
[Artigo de: Adelino Cardoso Cassandra]
A minha avó, Maria Preta, dizia-me sempre, com uma convicção e sabedoria que só a idade proporciona: respeite os anões mas não o temas. Ela tinha a sua razão, suportada por factos vivenciais, de uma vida nómada, ao lado do marido, um feitor agrícola, nas diversas roças de S.Tomé e Príncipe. Segundo a minha avó, na roça Agua- Izé, onde ela viveu uma temporada, havia um anão que, para demonstrar a sua autoridade, junto da esposa, dos demais trabalhadores e administradores da referida roça, chamava a mulher para o centro do terreiro, assim que esta transgredisse, voluntária ou involuntariamente, qualquer das regras que, ele, aleatória e autoritariamente, decretara como sendo o seu “Tratado de Vida Conjugal”.
O referido anão, fazia questão de andar com o seu “Tratado de Vida Conjugal” (um conjunto de folhas já amarelecidas) debaixo do braço, por toda a parte. Uma vez no centro do terreiro, e rodeado por centenas de trabalhadores, em total alvoroço teatral, o casal cumpria o seu rito. Ele subia para cima de um banco, para compensar o défice de altura em relação à mulher, e esta, com as duas mãos coladas aos quadris, esticava a face para a frente, para, num acto de total submissão, receber os quatro pares de bofetadas do dia, intervaladas por palmas e olês dos trabalhadores em roda. Cumprido o acto cénico, que o anão fazia questão de propagar, nas redondezas, como o de “restauração da autoridade do marido”, a mulher desaparecia, submissa, envergonhada e angustiada, no meio daquela multidão rumo à cozinha.







