Jan 19 2008
A ilha do Príncipe: um esquecido lugar na História
[Artigo de: Inocência Mata @ 17 de Janeiro de 2008]
Sobral, uma pequena cidade do interior de Ceará, no nordeste brasileiro, é muito celebrada por ter recebido uma das duas expedições científicas patrocinadas pelas instituições britânicas Royal Society de Londres e Royal Astronomical Society e lideradas pelo astrofísico britânico Arthur Stanley Eddington, que intentava comprovar o desvio da trajectória da luz durante o eclipse solar. Todos sabem que foi pelos resultados dessas observações durante o eclipse de 1919 que permitiu a Einstein, anos depois, provar a sua teoria da relatividade em que ele vinha trabalhando já antes de 1905, ano em que publicou, então com 26 anos, na revista alemã Anais da Física (ou Annalen der Physik, uma das mais prestigiadas revistas de estudos da Física em todo o mundo), na edição de 30 de Junho, o artigo “Sobre a electrodinâminca dos corpos em movimento”, que o jovem físico apresentou o “Princípio da Relatividade”, lançando as bases da teoria equacionada através da fórmula E=mc², isto é, a energia é igual à massa do corpo vezes o quadrado da velocidade da luz; ou seja, que as características do espaço não são absolutas dependendo antes do observador. É então que, segundo os entendidos – e toda a gente que estudou pelo menos até ao 9º ano estuda isso –, o relativismo de Albert Einstein destronou o absolutismo de Isaac Newton.
Ora, acontece que a segunda expedição britânica foi uma pequena e desconhecida no Golfo da Guiné, o Príncipe. Os expedicionários – vamos chamar-lhes assim – chegaram ao Príncipe no dia 23 de Abril e aí passaram cinco semanas instalados na roça Sundy. O relato da expedição é feito pelo próprio Arthur Eddington e por Edwin Cottingham. Porém, poucos sabem que o Príncipe é um dos dois lugares do mundo “responsáveis” por uma das maiores descobertas científicas do século XX, não obstante rezar a história que as observações levadas a efeito em Sobral foram muito mais conclusivas porque no dia do eclipse, 29 de Maio de 1919, porque o tempo no Príncipe amanheceu um tanto nublado e não permitiu fotografias muito nítidas do eclipse. Dizem os próprios que
Os dias anteriores ao eclipse foram muito nublados. Na manhã do dia 29 de Maio houve uma tempestade intensa entre as 10 e as 11.30 – um acontecimento raro na época do ano em que nos encontrávamos. Em seguida, o Sol apareceu durante alguns minutos, para desaparecer de novo entre as nuvens. (1992: 100)
Tudo isso vem no livro, já relativamente antigo, de 1992, Eddington e Einsteini, com relatos dos próprios dessa expedição. O livro inclui ainda a conferência de Eddington sobre o esse fenómeno da deflexão da luz. É um livro que talvez se leia sem grandes dificuldades – ou pelo menos, algumas partes dele: eu, por exemplo, ignorante absoluta de matérias tão “áridas”, apreciei aqueles trechos em que se fala da ilha e da sua natureza, do tempo e da ajuda que os expedicionários tiveram dos habitantes das ilhas: os autores até agradecem algumas pessoas cujos nomes vêm referenciados nos relatos.
Se hoje, dia 17 de Janeiro, falo disso é porque quero lembrar, e não apenas ao mundo a importância da ilha do Príncipe nesse processo de “verificação experimental da teoria da relatividade generalizada”, repito, uma das mais revolucionárias teorias do século XX. Sobre Sobral de Ceará há muita publicidade, marketing turístico para atrair visitantes, livros tanto por agentes turísticos como por cientistas; sobre o Príncipe… bem, pelos vistos não é apenas o mundo a precisar de conhecer o lugar do Príncipe no universo da ciência – também os são-tomenses precisariam disso, com a excepção de uma ou outra referência, como aquela que vem no site oficial do governo da ilha do Príncipe.
E como hoje é um dia histórico (independentemente da subjacência ideológica da data – que a tem, claro), vamos desejar que cedo a História reconheça essa marca científica da ilha que um dia viu nascer João Maria de Sousa Almeida, (1816/1869), a quem se atribui o incentivo do cultivo do cacau e a introdução da árvore fruta-pão em São Tomé, e filhos dilectos como Marcelo da Veiga e Manuela Margarido… Para além de muitos outros, não tão anónimos assim que, como acontece em outras áreas, os são-tomenses têm dificuldade em acarinhar…
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i A.M. Nunes dos Santos e Christopher Auretta (Introdução, apresentação, notas e tradução), Eddington e Einstein – Verificação Experimental da Teoria da Relatividade Generalizada na Ilha do Príncipe. Lisboa: Gradiva, 1992
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