Nov 08 2007

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Para onde nos leva a ficção…

Publicado em crónicas, às 21:26

[Artigo de: Inocência Mata]

Vi há dias um episódio da muito premiada série americana Boston Legal, no ar desde 2004, uma série que gira à volta das actividades de uma firma de advogados de performance de excelência, a Crane, Poole & Schmidt, e que, como qualquer série ou filme americano, quer dar conta da qualidade democrática das instituições dos Estados Unidos, em que o poder judicial é independente do poder político.

Pois tratava-se de um episódio interessantemente insólito: um cidadão sudanês naturalizado americano (ou talvez devesse dizer: um cidadão americano de origem sudanesa), que enriqueceu no ramo das telecomunicações, solicita os serviços dos tais advogados para processar o governo americano por cruzar os braços perante o genocídio étnico no Sudão, já reconhecido como tal pelos Estados Unidos. O sudanês acabava de perder o 11º membro da sua família, todos assassinados (antes de mais, devo dizer que achei curiosa essa homenagem antecipada ao advogado sudanês Salih Mahmoud Osman que acaba de ser galardoado com o Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento 2007, prémio instituído pelo Parlamento Europeu em 1985 para homenagear pessoas e organizações que se dediquem a acções de defesa dos direitos humanos e da liberdade). A defesa dos advogados da tal firma, alegou que, como os Estados Unidos se posicionam sempre como uma entidade que luta pelos direitos humanos e pela democracia – foi essa a razão alegada para invadir o Iraque –, o mundo todo espera que, também aqui, o país assuma as suas responsabilidades, razão pela qual nenhum país tomara a iniciativa de travar esse genocídio. E isso com base numa lei designada Federal Tort Claims Act, que permite que o governo americano seja processado por qualquer cidadão por negligência (a “coisa” é mais complexa, porém não relevante para o que quero aqui referir). A defesa termina a sua argumentação dizendo que essa atitude ambígua dos Estados Unidos – ora muito solidários e solícitos, ora estando-se nas tintas para alguns outros países (e, acrescento eu, sobretudo quando são africanos e não têm petróleo) – confunde o mundo e demonstra que os Estados Unidos podem não ser bons em ajuda humanitária, mas que certamente são muito bons em vingança.

É verdade que se trata de um exercício académico de ficção, uma brincadeira com a lei internacional e com a vida das pessoas. Porém, uma ficção que proporciona, como deve ser sempre, prazer estético: isto é, deve deleitar e levar à reflexão ética. E a reflexão levou-me a duas questões: a primeira diz respeito à inércia da Comunidade Internacional quando foi do genocídio no Ruanda em que se discutia se se tratava de genocídio ou de simples massacre para só então decidir da intervenção – entretanto, aconteceu um milhão de mortos! Só um bocado mais (não é?) do que os quase 3.000 de Nova Iorque que ocasionaram os indiscriminados e por isso criminosos bombadeamentos do Afeganistão. E desse processo dá conta o filme Hotel Ruanda, do realizador irlandês Terry George, e de que já aqui falei. A segunda questão, que decorre da acusação de ambiguidade dos Estados Unidos no tratamento e análise de questões internacionais feita pelas duas advogadas do cliente sudanês, remete-me para o eterno problema de dois pesos, duas medidas (demonstrada agora com a oposição dos Estados Unidos a uma possível intervenção da Turquia, o que nunca acontece quando o eventual ataque vem de Israel) no assunto que vem marcando a agenda política euro-africana: o facto de Robert Mugabe ser visto como o maior monstro de África por mentes muito iluminadas e, ao que dizem, isentas e que, por isso, deve ser isolado. Porquê? Porque levou o seu povo a uma miséria inaudita, à fome mais ignominiosa, a um regime de doentia autocracia (obviamente que convém dizer que o era antes de começar o nefando processo de expoliação dos fazendeiros brancos, mas enfim, até então isso não era importante). Pois bem, Robert Mugabe é certamente um monstro, mas não menor monstro que Omar al-Bachir, responsável pelo primeiro genocídio do século XXI. E, a não ser que eu esteja muito distraída, não existe em curso nenhum boicote à presença do presidente sudanês à Cimeira de Lisboa…

Por tudo isso, gostei imenso do episódio de Boston Legal. E, mais uma vez, ficou demonstrado algo que, injustamente, nem sempre é visível (porque a “imprensa oficial” é tão forte que as vozes discordantes são silenciadas por omissão): que a América, isto é, os Estados Unidos são um país muito interessante em termos de capacidade de uma atitude de catarse, de penitência e de estímulo a uma reflexão intelectual.

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