Out 24 2007

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Os Homens e a História

Publicado em crónicas, às 12:20

Em sequência da minha crónica da semana passada, a propósito do Dia Internacional do Professor, quisera eu trazer aqui um livro que convoca um tema sobre a Educação através da Leitura. Trata-se de um tema enviesado é certo, na medida em que sou professora de literatura, mas precisamente por isso: a literatura permite olhar o Mundo sob vários prismas, emprestando olhares de outros para perscrutar o que está para além do “racional”, do programado”, do “tangível”. Eis porque me desvio – creio que apenas aparentemente – do livro de que pensava falar, precisamente intitulado Literatura & Educação[1], de Gabriel Perissé, para trazer um tema que me foi sugerido pela leitura de um analista político português[2].

Para o articulista, José Cutileiro, ao qual tomo emprestado o título desta crónica, a diferença entre os países não é explicável apenas pela geografia e pela história. Exemplificando, ele convoca os casos das duas últimas transições do século XX que presenciou, com efeitos e resultados completamente antagónicos – a da África do Sul, de âmbito congregador e reconciliador, e a da Jugoslávia, de dissolução violenta – das quais pôde concluir que a política muito depende da qualidade dos políticos.

Ora nem mais! Quem viu o extraordinário filme A Rainha, de Stephen Frears, com a fabulosa interpretação da actriz Helen Mirren (papel que lhe valeu tanto o Óscar americano como Bafta britânico de melhor interpretação, para além de muitos outros prémios – o de Festival de Veneza, por exemplo), sabe bem quão fundamental foi a visão pessoal da rainha. A Rainha é um filme sobre o equilíbrio entre o público e o privado, entre a a responsabilidade e a emoção, entre o querer e o dever, entre a prioridade pessoal e a responsabilidade colectiva. Mas trata-se também de uma fábula sobre o carácter e o temperamento de uma política face à terrível adversidade que se abatera sobre a família real e o país. A serenidade da rainha conseguiu aplacar os ânimos e pacificar o país – falo, obviamente de Isabel II, rainha da Inglaterra, país de Winston Churchill que ficaria na história do seu país e da Europa como aquele político que conseguiu fazer as alianças certas para impedir a dominação da Europa pela Alemanha nazi e de ser, por isso, para todas as gerações seguintes de britânicos e europeus, um exemplo de político e de cidadão.

Há muito tempo que venho dizendo que não basta querer ser político ou governante, preciso ser-se preparado para – contra a visão inefável dos discursos da conjuntura internacional, da globalização e da relativização do conceito de independência. Porém, não considerar o carácter e até o temperamento do político, o seu background familiar, social e cultural, o seu sentido de ética e moral, as suas ambições e a sua visão de futuro é não perceber quão humana é a política. Olhando para o espectro dos políticos em qualquer país se percebe a situação em que o país vive: boa ou menos boa, má ou péssima – não obstante a dita conjuntura internacional e os meandrs maquiavélicos da política.

Não existe nada escrito sobre a atitude de um governante quando acontece um contratempo, uma adversidade no país: tudo depende do seu bom senso e de um misto daquilo que designei atrás como sendo carácter, background familiar, social e cultural e formação ética e moral. E, no final, o conceito do seu país na gestão da sua vida.

Reflictam agora – e para terminar – sobre a minha seguinte questão: numa altura em que o que se passa em São Tomé é incontornável neste assunto sobre a qualidade dos políticos e cidadãos de um país, a decisão de o presidente de São Tomé e Príncipe em abandonar o país para uma das suas quinzenais viagens, numa altura de turbulência, em que uma das forças paramilitares do país se levanta em armas (ele que é Comandante-em-chefe) denota o quê? Que a História de um país depende, sem dúvida, talvez mais da qualidade dos políticos do que de factores de outra ordem… Na verdade, para ser político, e parafraseando o nonagenário Júlio Resende, artista plástico português, “não basta ter experiência de vida. Às vezes a experiência ajuda-nos na técnica, mas não serve para o espírito”[3]

Inocência Mata


[1] Gabriel Perissé, Literatura & Educação, São Paulo: Eutênctica Editora, 2007.
[2] José Cutileiro, “O Homens e a História”. Expresso. Internacional/Opinião. nº 1824, 13 de Outubro de 2007 (Lisboa).
[3] Júlio Resende.Revista Visão (Lisboa), nº 763. 18 de Outubro de 2007. p. 174

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