Fev 10 2007
Não que eu esteja naquele espaço-momento em que me apetece dizer qualquer coisa:
Não se trata de inspiração, nem de nada que se lhe pareça.
Só: momento-espaço: espaço e momento.
Por exemplo
Falar com os pássaros através do fumo
Matar pássaros com os fumos: carros da avenida de Berna
Gulbenkian e música.
Música dos pássaros: não sei dos nomes; não os conheço.
Gulbenkian: não é por nada.
Nada de especial.
Mas é Gulbenkian: é a avenida, os pássaros e os fumos.
É por Monsanto estar longe e as flores e os pássaros estarem aqui ao pé.
Menos distante.
É por sentir-me bem neste jardim:
É por estar sentado: literalmente no chão:
É por estar naquele dia em que me apetece dizer qualquer coisa.
Escrever sobre a viagem do pássaro: o da avenida de Berna
Eu ajoelhado e ele aqui: morrendo por respirar o ar da avenida:
Carros caros e pobres.
Carros do estado e assim.
Carros
(também irei morrer um dia: como o pássaro, sabes?)
Ele olha-me nos olhos como se fosse parente seu: desvio o olhar. Porquê desafiá-lo no seu natural habitat (com ou sem fumo, é seu)
Com ou sem barulho: é dele.
Porquê desafiá-lo: fujo olhar: fujo com o olhar: reencontro-me de cada vez que olho para ele
:plágio puro.
Talvez seja parente seu: talvez vá morrer como ele: de fumo mas com silêncio.
Anda a minha volta debicando coisas no chão: e eu sentado no chão.
Vou morrendo aos poucos: ele vem-me matando desde que fugi do olhar.
Vou morrendo aos poucos: ele vem-me matando desde que fugi com olhar.
Vai indo e vindo.
Quando vai: telheiras
Quando Vem: Estónia: Tallin
No meio fica S.T.P. sem Príncipe: São Tomé e Príncipe sem Príncipe.
Daqui do fumo: da avenida: vou à marginal lisboeta.
: e a de S.T.P. também
De olhos fechados e caneta entre dedos sinto a minha gente e os meus cheiros.
Ponho personagens neste espaço-momento em que me apetece dizer qualquer coisa:
E não as passo para a caneta.
E as mães da avenida?
: a esta hora domingueira.
A avenida que está deserta: e os fumos que matarão os pombos de Berna.
Os passáros do jardim que em conjunto, assim, serão meus carrascos.
Menos um: o que agora está no Rossio.
E os jovens casais abraçados: conversando sobre oquê?
Não sei: também não conversei sem que estivesse abraçado.
Minto: não do abraço, mas dos rostos das gentes da avenida.
Hoje: domingo?: Marginal cheia de rostos e almas: praia
A da Tia Alice.
A rica Tia por ter uma praia com o seu nome.
Praia que é única, mas que tem bué de nomes.
Para os sobrinhos da vizinha do chalé da esquerda:
- praia da Tia Esperança
Para os da/do direita:
- praia da Tia Lóló
Para todos:
- praia da Tia Bia.
(vês?: coisa estranha: isso dos nomes e da marginal)
Não que ele já não esteja aqui:
nem no Rossio
nem em Telheiras
está no Monte Abraão
E não me apetece ir para lá: ele que morra por lá
Ele que me debique por completo
Que se asfixie nas proximidades entre os prédios
Que se esfole no intenso tráfego do Itenerário Complementar: 19
Que se asfixie, de novo, nas proximidades entre os prédios
Com os brancos; com os pretos e mulatos
(sem chinocas, nem os restantes)
Ele que me debique por completo
Ele que me debique por completo
Mais uma vez:
Ele que me debique por completo
E as mães da avenida: com os filhos às costas
E o casal: de mãos dadas: abraçados
E eu: aqui no chão
E um dos pássaros: pombo: morto no meu chão.
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