Fev 10 2007

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- HP -

Publicado em wordJ, às 11:58

Não que eu esteja naquele espaço-momento em que me apetece dizer qualquer coisa:

Não se trata de inspiração, nem de nada que se lhe pareça.

Só: momento-espaço: espaço e momento.

Por exemplo

Falar com os pássaros através do fumo

Matar pássaros com os fumos: carros da avenida de Berna

Gulbenkian e música.

Música dos pássaros: não sei dos nomes; não os conheço.

Gulbenkian: não é por nada.

Nada de especial.

Mas é Gulbenkian: é a avenida, os pássaros e os fumos.

É por Monsanto estar longe e as flores e os pássaros estarem aqui ao pé.

Menos distante.

É por sentir-me bem neste jardim:

É por estar sentado: literalmente no chão:

É por estar naquele dia em que me apetece dizer qualquer coisa.

Escrever sobre a viagem do pássaro: o da avenida de Berna

Eu ajoelhado e ele aqui: morrendo por respirar o ar da avenida:

Carros caros e pobres.

Carros do estado e assim.

Carros

(também irei morrer um dia: como o pássaro, sabes?)

Ele olha-me nos olhos como se fosse parente seu: desvio o olhar. Porquê desafiá-lo no seu natural habitat (com ou sem fumo, é seu)

Com ou sem barulho: é dele.

Porquê desafiá-lo: fujo olhar: fujo com o olhar: reencontro-me de cada vez que olho para ele

:plágio puro.

Talvez seja parente seu: talvez vá morrer como ele: de fumo mas com silêncio.

Anda a minha volta debicando coisas no chão: e eu sentado no chão.

Vou morrendo aos poucos: ele vem-me matando desde que fugi do olhar.

Vou morrendo aos poucos: ele vem-me matando desde que fugi com olhar.

Vai indo e vindo.

Quando vai: telheiras

Quando Vem: Estónia: Tallin

No meio fica S.T.P. sem Príncipe: São Tomé e Príncipe sem Príncipe.

Daqui do fumo: da avenida: vou à marginal lisboeta.

: e a de S.T.P. também

De olhos fechados e caneta entre dedos sinto a minha gente e os meus cheiros.

Ponho personagens neste espaço-momento em que me apetece dizer qualquer coisa:

E não as passo para a caneta.

E as mães da avenida?

: a esta hora domingueira.

A avenida que está deserta: e os fumos que matarão os pombos de Berna.

Os passáros do jardim que em conjunto, assim, serão meus carrascos.

Menos um: o que agora está no Rossio.

E os jovens casais abraçados: conversando sobre oquê?

Não sei: também não conversei sem que estivesse abraçado.

Minto: não do abraço, mas dos rostos das gentes da avenida.

Hoje: domingo?: Marginal cheia de rostos e almas: praia

A da Tia Alice.

A rica Tia por ter uma praia com o seu nome.

Praia que é única, mas que tem bué de nomes.

Para os sobrinhos da vizinha do chalé da esquerda:

- praia da Tia Esperança

Para os da/do direita:

- praia da Tia Lóló

Para todos:

- praia da Tia Bia.

(vês?: coisa estranha: isso dos nomes e da marginal)

Não que ele já não esteja aqui:

nem no Rossio

nem em Telheiras

está no Monte Abraão

E não me apetece ir para lá: ele que morra por lá

Ele que me debique por completo

Que se asfixie nas proximidades entre os prédios

Que se esfole no intenso tráfego do Itenerário Complementar: 19

Que se asfixie, de novo, nas proximidades entre os prédios

Com os brancos; com os pretos e mulatos

(sem chinocas, nem os restantes)

Ele que me debique por completo

Ele que me debique por completo

Mais uma vez:

Ele que me debique por completo

E as mães da avenida: com os filhos às costas

E o casal: de mãos dadas: abraçados

E eu: aqui no chão

E um dos pássaros: pombo: morto no meu chão.

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