Mai 29 2008
Crónica sobre dois assuntos – ou talvez três…
[Artigo de: Inocência Mata]
Esta semana de todos os horrores com o que está a acontecer na África do Sul, foi também a semana em que se celebrou, mais uma vez, a revitalização da esperança: refiro-me ao 25 de Maio, Dia de África, tradicionalmente celebrado, hoje com menos festividades e cada vez mais com mais reflexão.
Comecemos pelo primeiro assunto composto de uma série de acontecimentos macabros: a lenta, larvar e quase acarinhada violência xenófoba na África de Sul.
Já muito se disse, repetindo-se, complementando-se, esclarecendo. Porém, dos mais lúcidos comentários, sintéticos, aliás, sobre o assunto, li-o na semana passada no semanário português Expresso (24 de Maio de 2008), da autoria de Fernando Madrinha e, porque pequeno e inteligentemente certeiro, vou partilhá-lo:
“O lobo do homem
Entre a civilização e a barbárie vai um passo, todos sabemos. Mas uma coisa é sabê-lo pelo que diz a História, ou porque Hobbes nos ensinou, outra coisa é ver com os próprios olhos, ainda que pela televisão, o homem como lobo do homem. Quando o Estado se demite ou se revela incompetente - sucedeu agora na África do Sul, mas pode suceder em qualquer lugar - a natureza humana logo revela o pior de si. A caça ao imigrante moçambicano e zimbabweano, morto a eito, à paulada, com catana ou pelo fogo, aí está como explosão brutal e perturbadora do ódio ao outro, incontrolável. Enquanto espécie, parece que pouco avançámos, afinal.”
Pouco avançámos também desde 25 de Maio de 1963, num certo sentido a que vou fazer referência. Penso sempre, nesse dia, nos objectivos e nas esperanças daqueles 32 chefes de Estado africanos que se reuniram contra a colonização e a subjugação a que todo continente fora submetido durante séculos, numa frente contra o colonialismo e o neocolonialismo. Não se referiam eles apenas às matérias-primas, senão também ao neocolonialismo cultural. Ora, estamos longe, muito longe da condição de “objecto cultural” que sempre fomos: e se hoje já não somos objecto da etnologia – que, como se sabe, foi a ciência que esteve sempre de mãos dadas com o colonialismo, pelo uso que este fez dela e não, obviamente, por quaisquer características intrínsecas – portanto, dizia, e se hoje já não somos objecto da etnologia, os africanos continuam a não ser sujeitos: somos objecto de “africanistas” historiadores, sociólogos, linguistas, antropólogos politólogos e, em alguns casos, de um africanista que se passeia por todas essas ciências … enfim, sendo especialista de tudo! Mas para tornar a história mais trágica, discutiu-se em Luanda, nessa marginalização a que os africanos são votados quando se trate de estudar, reflectir sobre o continente, há a subserviência do próprio africano perante tudo o que é dito pelo “africanista” europeu: obediente e agradecido por ser estudado, o africano molda-se de forma a ilustrar as teses científicas europeias, cujos autores – africanistas, claro! – vão acumulando títulos e subsídios para empreender estudos sobre a África…
É o que vem acontecendo, porém também o que vem sendo denunciado: foi este o tema dos colóquios realizados por ocasião do 25 de Maio, pela Universidade Agostinho Neto, em Luanda. E falando dos Cinco (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe), não há dúvidas de que, tivesse Joseph Ki-Zerbo conhecido a realidade são-tomense, dir-se-ia ter o Mais Velho nela inspirado quando, na sua entrevista testamentária, Para Quando África?[1], o historiador burkinabé fala dessa preocupação de dependência científica, técnica e tecnológica da África face à Europa. Diz ele que “os colonizadores prepararam um assalto à nossa história» (p. 25), fazendo com que ainda hoje os africanos se comportem como verdadeiros “súbditos coloniais”, com uma superstrutura intelectual muito vinculada ao que lhes é ensinado, chamando o historiador a atenção para o facto de que a investigação fora um dos instrumentos da colonização (p. 15). E está a ser do neocolonialismo.
Por isso, há que trabalhar para que o CODESRIA cumpra esse papel de dinamização da investigação no âmbito das ciências sociais e humanas. Para que o verdadeiro sentido do 25 de Maio seja, de facto, o que realmente é anunciado: Dia da Libertação da África!
Já que falei de São Tomé e Príncipe, uma última nota disfórica, porém não surpreendente: os são-tomenses ficaram a saber – embora muitos já desconfiassem, mas esses eram tidos como gente pessimista e de má fé e, até, anti-são-tomense! – que as concertações partidárias não passavam de negociatas! Quem for a um qualquer dicionário da língua portuguesa saberá o que é uma negociata. Dir-me-ão, de novo, que é má-fé. Pense-se apenas que a psicanálise explica esses lapsos da linguagem verbal. Por outro lado, vale lembrar que a democracia é uma instituição também formal, pois à mulher de César não basta apenas sê-lo, é preciso parecê-lo. Mas isso talvez seja pedir demais…
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[1] Joseph Ki-Zerbo, Para quando a África? Entrevista de René Holenstein. Porto: Campo das Letras, 2006. [Tradução de Carlos Aboim de Brito]
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Nem vale a pena comentar!!Essa minha Tia é bwe,heheheehehe!!!Não se metam
Inocência para Presidente!!Já e Agora!!Zuela mesmo minha Kôta:=)